Mulheres têm papel decisivo no desenvolvimento do agronegócio
28/05/2026
Elas estão ganhando espaço no campo. E não apenas nos talhões de produção de café ou no apoio das propriedades de maridos ou parentes. As mulheres, cada vez mais, são as donas do próprio negócio, assumem o comando de suas terras, escolhem o que produzir, como produzir e também a melhor forma de vender. Justamente por isso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) declarou 2026 o Ano Internacional das Mulheres Agricultoras — tema também do 19o Encontro das Mulheres Cooperativistas do Sistema Ocemg, que aconteceu em Araxá enttre os dias 21 a 23 maio.
As mulheres respondem, hoje, por 36% da força de trabalho no agro na América Latina e Caribe. No Brasil, esse contingente soma mais de 11 milhões de profissionais — o que representa 30% do setor —, liderando uma a cada cinco propriedades rurais do país. Os dados foram apresentados pela jornalista Renata Maron durante a palestra de “Mulheres do Agro: ousadia para crescer”, que fechou o evento.
Com duas décadas de cobertura no setor agropecuário, Renata defende que as mulheres não deveriam atuar isoladas na gestão de suas propriedades. “O cenário atual exige lideranças corajosas, capazes de assumir o protagonismo dos negócios e deixar um legado brilhante para as próximas gerações”.
Para ilustrar esse impacto, a jornalista resgatou o legado da pesquisadora Mariangela Hungria, que revolucionou o agro brasileiro ao desenvolver técnicas de fixação biológica de nitrogênio no solo — uma tecnologia que substitui o uso de fertilizantes químicos no solo e poupa bilhões de dólares anualmente para milhares de produtores, no Brasil e no mundo. O feito rendeu a ela o World Food Prize, considerado o Prêmio Nobel da Agricultura, e uma vaga na lista de pessoas mais influentes do mundo pela revista Time.
“O reconhecimento global da Mariangela prova que a ciência e a liderança feminina no campo brasileiro não têm fronteiras”, apontou Renata. “O exemplo dela deve servir de espelho para que cada cooperada aqui em Araxá entenda o tamanho do seu potencial e perca, de uma vez por todas, o receio de liderar”.
CAFÉ FEMININO TEM PÚBLICO CATIVO
O número de mulheres cooperadas no mercado de café brasileiro cresceu 38% entre 2016 e 2021, de acordo com o levantamento CooperGênero, elaborado pela sucursal brasileira da Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA Brasil). Juntas, elas produziram mais de 212 mil sacas do grão com uma movimentação financeira superior a R$ 100 milhões. Mas nem sempre foi assim…
“Por décadas, a mulher esteve na lavoura, mas não aparecia nos registros oficiais da produção”. constata Danielle Pereira Baliza, diretora de Pesquisa e Sustentabilidade da Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA) Brasil, eleita pela revista Forbes uma das principais referência do Brasil em biociência. Ainda segundo Danielle, muitas agricultoras colhiam, processavam, decidiam. Ainda assim, o café seguia em nome dos maridos ou com uma menção indireta que buscava invisibilizá-la: produzido por fulano de tal e “outra”.
“Hoje, por meio da constituição de núcleos femininos nas cooperativas e de um mercado externo que busca e paga um ágio a mais pelo café produzido por mulheres, a ‘outra’ tem nome e, consequentemente, recurso em mãos”, comemora Danielle.
Apesar dos avanços, Danielle alertou para gargalos que persistem, como a sobrecarga de trabalho e a falta de acesso à informação. “Muitas cooperativas de crédito já possuem linhas específicas voltadas para as mulheres do campo, mas essa informação não chega até a ponta, até quem está na lavoura”, alertou.
Dispostas a reverter essa situação, cerca de 20 entidades — entre elas o Sistema Ocemg — articulam uma proposta de Política Nacional para as Mulheres do Café, que deve ser apresentada na Semana Internacional do Café, em novembro. O objetivo é alinhar ciência, mercado e políticas públicas.
Danielle deixa um recado claro para as cooperativas mineiras: “Invistam nas mulheres. Quando criamos oportunidades, elas transformam não apenas a realidade de suas casas, mas geram renda, qualidade de vida e desenvolvimento para toda a região”.
O paradigma da cooperação
O trabalho feminino na cafeicultura brasileira sempre esteve presente, mas por muito tempo permaneceu invisível pela ausência de dados que registrassem essa participação. Segundo a pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Helena Maria Ramos Alves, o problema central era justamente a falta de informação sistematizada, o que ajudou a consolidar, por anos, a percepção equivocada de baixa participação feminina no setor. Ela lembra que, em uma atividade majoritariamente familiar como a cafeicultura brasileira, a presença das mulheres sempre foi estrutural, ainda que invisibilizada.
“O que aconteceu foi que, pela ausência de dados segregados por gênero, se propagou internacionalmente a ideia de que não havia mulheres na cafeicultura brasileira. Mas isso nunca foi verdade”, afirma Helena . “Desde o início da implantação do café no Brasil, as mulheres estiveram presentes, seja no período escravizado, seja nas migrações, e depois nas propriedades familiares”.
Números, pesquisas e políticas ganham sentido quando chegam à lavoura. Foi esse elo — entre o dado e o cotidiano — que o painel “Mulheres no Agro” trouxe ao palco em Araxá, com experiências de campo de grandes cooperativas mineiras que já colhem os resultados de anos de investimento na autonomia feminina. Confira alguns exemplos:
INCLUSÃO
Na Cooperativa Agropecuária de Unaí (Capul), o ponto de partida foi simples e revelador: muitas das produtoras atendidas pelo Comitê de Mulheres não tinham conta no banco quando entraram no programa. A partir da estrutura educacional da cooperativa, elas passaram a acessar frentes de diversificação agrícola — produção de aves para postura e corte, cultivo de maracujá e café conilon — e, com elas, renda própria, inserção no sistema financeiro e, para algumas, assento nos conselhos da instituição.
“O projeto viabilizou essa inserção no mercado financeiro, trazendo renda e segurança”, contou Regiane Joslin, representante do Comitê. “Mas além de empoderar a mulher na ponta, precisamos de ações que sensibilizem os homens para que eles entendam a importância desse papel na gestão”.
CORAGEM
Na Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocaccer), o movimento feminino começou em 2018. Por lá, há cooperadas que hoje gerenciam suas próprias lavouras, vendem suas safras de forma independente e acumulam premiações nacionais em qualidade de café, manejo regenerativo e balanço de carbono. A gerente técnica em Sustentabilidade da cooperativa, Farlla Gomes, resumiu o que essa virada representa dentro e fora da porteira. “Nossas mulheres não são apenas inscritas, elas participam diretamente do mercado e da sustentabilidade. Com essa atuação ativa, conseguimos entregar na xícara um café de impacto social e ambiental”.
Para Farlla, o valor de um encontro como o de Araxá não se mede em palestras ou certificados, mede-se em coragem. “O principal indicador de um evento como este é a coragem. Ao escutar e trocar experiências com outras companheiras, a mulher se encoraja a tentar algo novo e percebe que é possível sim estar onde ela quiser”.
OUSADIA PARA CRESCER
Foi exatamente para encurtar o caminho entre as estatísticas globais e a realidade prática das produtoras que o Sistema Ocemg reuniu 300 cooperadas em Araxá. A construção metodológica das atividades seguiu essa premissa de transformar dados econômicos em ferramentas de campo, como explica a gerente de Educação e Desenvolvimento Sustentável da instituição, Andrea Sayar.
“Não desenhamos este encontro para ser apenas um momento teórico, mas para demonstrar, na prática, o impacto real e mensurável que a mulher imprime no agronegócio e em cada ramo do cooperativismo”, explica. “Trazer indicadores robustos serve para dar segurança a essas produtoras e gestoras. Queremos que elas enxerguem sua própria força econômica e retornem às suas bases preparadas para ocupar posições estratégicas e liderar a inovação nas lavouras”.
Sistema Ocemg