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Eficiência sem governança gera crescimento frágil

O cooperativismo vive um momento de crescente profissionalização. Muitas cooperativas avançaram em gestão, tecnologia, expansão de mercado e eficiência operacional, ampliando sua competitividade em ambientes cada vez mais complexos. Entretanto, esse movimento também revelou uma fragilidade institucional que nem sempre recebe a devida atenção, o crescimento organizacional nem sempre é acompanhado pela evolução da governança.

O problema se torna ainda mais delicado quando a busca por desempenho operacional passa a concentrar poder, reduzir espaços de participação e enfraquecer mecanismos de supervisão institucional. Nesse cenário, a cooperativa pode até apresentar bons resultados no curto prazo, mas começa a acumular riscos silenciosos relacionados à transparência, à legitimidade das decisões e à sustentabilidade organizacional. Em estruturas cooperativas, eficiência sem equilíbrio institucional tende a produzir vulnerabilidades estratégicas.

O Manual de Boas Práticas de Governança Cooperativista do Sistema OCB define governança como o sistema pelo qual as cooperativas são dirigidas, envolvendo cooperados, órgãos de governança e demais partes interessadas, sempre fundamentado nos princípios cooperativistas. Essa definição é relevante porque desloca a governança de uma visão meramente burocrática para uma lógica institucional. Governança não se resume à formalização de conselhos ou à existência de normas internas. Trata-se da estrutura que organiza responsabilidades, delimita poderes, protege interesses coletivos e assegura coerência entre estratégia, gestão e identidade cooperativista.

Nesse contexto, torna-se fundamental compreender que gestão e governança exercem funções distintas dentro da cooperativa. A gestão possui natureza executiva e operacional. Sua responsabilidade está relacionada à implementação da estratégia, a coordenação de processos, a administração de recursos e a geração de resultados. A governança, por outro lado, possui natureza estratégica e institucional. Seu papel consiste em supervisionar a gestão, estabelecer direcionamentos, definir limites de atuação e assegurar que as decisões estejam alinhadas aos princípios, aos objetivos coletivos e à perenidade da cooperativa.

Essa diferenciação é decisiva porque muitos dos problemas institucionais enfrentados pelas cooperativas não decorrem da ausência de competência gerencial, mas da sobreposição entre poder estratégico e poder executivo. Nesse sentido, o Manual do Sistema OCB destaca que a segregação entre estratégia e operação constitui um dos pilares da boa governança, defendendo que o Órgão de Direção Estratégica deve concentrar-se no direcionamento institucional e na construção do futuro da cooperativa, enquanto a execução das operações deve permanecer sob responsabilidade de estruturas executivas capacitadas, supervisionadas e alinhadas às diretrizes estratégicas da organização.

Na prática, contudo, muitas cooperativas ainda operam sob modelos fortemente centralizados. Em diversos casos, lideranças executivas passam a exercer influência predominante sobre decisões estratégicas, enquanto conselhos assumem funções meramente homologatórias. Progressivamente, a organização deixa de depender de estruturas institucionais e passa a depender da força individual de determinadas lideranças. Embora esse modelo frequentemente produza agilidade aparente, ele também amplia riscos relacionados à concentração de poder, a baixa fiscalização e a fragilidade dos mecanismos de controle.

Os impactos desse processo vão além da dimensão administrativa. O próprio Manual alerta que a ausência de boas práticas de governança pode comprometer transparência, participação democrática, desempenho econômico, segurança jurídica e confiança institucional. Em cooperativas, esse risco assume proporções ainda maiores porque a confiança representa um dos principais ativos organizacionais. Sem confiança, enfraquece-se o vínculo entre cooperados e cooperativa, reduzindo participação, engajamento e fidelidade institucional.

Essa análise encontra respaldo de importantes autores do cooperativismo. Bialoskorski Neto (2002), por exemplo, argumenta que as cooperativas convivem permanentemente com tensões entre lógica econômica e lógica associativa. Isso significa que alcançar desempenho financeiro não é suficiente para assegurar sustentabilidade institucional. Cooperativas também precisam preservar a participação democrática, o equilíbrio de interesses, a transparência e o alinhamento entre cooperados e dirigentes. Quando essas dimensões deixam de coexistir harmonicamente, aumentam os riscos de conflitos internos e perda de legitimidade organizacional.

Na mesma direção, Zylbersztajn (2002) observa que organizações cooperativas enfrentam desafios específicos relacionados a incentivos, controle e alinhamento institucional. Segundo o autor, estruturas frágeis de governança tendem a ampliar problemas de oportunismo e conflitos de interesse, especialmente quando a complexidade organizacional cresce sem o devido amadurecimento institucional. Em outras palavras, quanto maior e mais complexa se torna a cooperativa, maior deve ser sua capacidade de estruturar mecanismos robustos de governança.

O próprio Manual do Sistema OCB reconhece essa necessidade ao afirmar que a governança cooperativista deve evoluir continuamente conforme o porte, a complexidade e o grau de maturidade da organização. Cooperativas maiores exigem maior clareza na divisão de responsabilidades, fortalecimento dos órgãos colegiados e aprimoramento constante dos mecanismos de supervisão estratégica. Isso ocorre porque crescimento organizacional sem fortalecimento institucional produz desequilíbrios que comprometem a própria sustentabilidade da cooperativa.

Além disso, estruturas excessivamente centralizadas tendem a enfraquecer a característica colegiada da governança cooperativista. O modelo cooperativo pressupõe pluralidade de perspectivas, responsabilidade compartilhada e participação democrática nos processos decisórios. Quando o conselho deixa de exercer efetivamente sua função estratégica ou quando a fiscalização perde autonomia, reduz-se a capacidade institucional da cooperativa de avaliar riscos, questionar decisões e preservar seus princípios organizacionais.

Por essa razão, interpretar governança como burocracia representa um erro estratégico. Governança não existe para dificultar decisões. Sua função é garantir qualidade decisória, previsibilidade institucional e equilíbrio organizacional. Estruturas maduras de governança reduzem riscos de personalização da gestão, fortalecem mecanismos de controle e asseguram que o crescimento da cooperativa permaneça alinhado aos princípios do cooperativismo.

Diante desse cenário, algumas reflexões tornam-se inevitáveis. O conselho exerce efetivamente direção estratégica ou apenas valida decisões executivas? Existe clareza entre funções políticas, estratégicas e operacionais? A cooperativa depende de processos institucionalizados ou da influência de lideranças específicas? Os mecanismos de controle possuem autonomia suficiente para exercer supervisão efetiva? Os cooperados compreendem como as decisões são tomadas?

Essas perguntas ajudam a medir o grau de maturidade institucional da cooperativa. No cooperativismo, gestão eficiente é indispensável para competir. Contudo, governança sólida é o que garante legitimidade, continuidade e sustentabilidade no longo prazo.

Resultados operacionais podem fortalecer temporariamente uma organização. Porém, somente estruturas institucionais consistentes conseguem sustentar sua perenidade.

Daniel Oliveira

Consultor e Instrutor em Cooperativismo, com atuação em governança, gestão e aceleração de cooperativas

 

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