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Cooperativas acirram disputa por clientes

07/07/2010

As cooperativas de crédito se preparam para expandir sua participação no sistema financeiro brasileiro e até mesmo começar a incomodar os grandes bancos privados nas maiores cidades do país. Até o início do mês passado, elas não tinham essa possibilidade. Mas uma resolução do Banco Central (BC) permitiu que possam ser constituídas cooperativas de crédito de livre admissão, ou seja, que podem admitir não cooperados. A norma vale também para as que estão nos municípios com mais de dois milhões de habitantes. Agora, o pensamento de algumas dessas instituições é se fortalecer – aumentando o volume de clientes ou por meio de fusões e aquisições – para tentar abocanhar uma fatia desse mercado. Com isso, a meta do setor de ampliar sua representatividade dos atuais 2% para 10% do mercado, em dez anos, pode ser atingida em um prazo menor.


Os principais diferenciais das cooperativas em relação a bancos de varejo são o atendimento mais personalizado e as taxas de juros na concessão de crédito, em geral bem mais baixas. Enquanto o segmento cobra, em média, 3% de juros mensais no cheque especial, por exemplo, instituições como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco, Santander, Itaú e outras praticam entre 6% e 9,5%. Apesar de vantagens como essa, a representatividade do cooperativismo ainda é pequena para forçar as demais instituições financeiras a reverem suas taxas e tarifas em favor dos clientes.


A publicação da Resolução 3.859/10, nos últimos dias de maio, permite mudar esse cenário e garantir uma concorrência efetiva no médio prazo. Até agora, as cooperativas de crédito tinham sua atuação limitada a localidades com população de até dois milhões de habitantes. Com as novas regras, essa restrição acaba. Elas, portanto, já podem atuar na modalidade de livre admissão - aquela em que os associados não estão vinculados a um grupo específico, como médicos ou servidores públicos - também nos grandes centros urbanos. Possibilidade que amplia em muito o potencial de crescimento das instituições.


Maior cooperativa de crédito de Minas Gerais e 12ª no país, a Credicom, que congrega apenas profissionais da saúde, está pronta para fazer a abertura. A diretoria da entidade está elaborando o projeto exigido pelo BC para que a mudança que lhe permitirá atender a qualquer pessoa, independentemente de vínculo profissional, seja autorizada. O plano de negócios deve provar a coesão interna da instituição, viabilidade da mudança para livre admissão, capacidade de atendimento dos novos cooperados, perspectivas de crescimento, entre outras obrigações.


O diretor comercial da Credicom, José Augusto Ferreira, acredita que seja possível ingressar no novo mercado já em 2011. “Vai depender do tempo gasto pelo Banco Central para conceder a autorização. Porque o patrimônio líquido exigido na Resolução para deixar de ser cooperativa de crédito segmentada, nós já temos. Mais que o dobro”, garante. Atualmente, o patrimônio da instituição supera os R$ 50 milhões. O capital inicial previsto pela nova legislação é de R$ 25 milhões.


Para Ferreira, ampliar a atuação nos grandes centros urbanos representa uma enorme oportunidade de expansão, com a captação de novos clientes. “É onde realmente poderemos concorrer com os grandes bancos. E somos mais atrativos”, assegura.


O assessor do Departamento de Normas do BC, Sergio Consolmagno, afirmou, à época da publicação da Resolução, que diversos segmentos da sociedade manifestaram interesse em se associar às cooperativas de crédito. Por isso houve a criação da nova norma, que tem a intenção de aumentar a inclusão bancária e fomentar a concorrência no setor.

 
Planejamento reduz os riscos da abertura

 
Embora ainda jovem e de menor porte, a Cooperativa de Crédito dos Funcionários da Secretaria de Defesa Social (Coopsesp) também se prepara para as novas possibilidades. Segundo seu presidente, Orlando Antunes de Oliveira, a instituição pretende aumentar a captação de clientes entre servidores públicos para se fortalecer e vislumbrar a abertura para livre admissão, no futuro. Ele avalia que, no seu segmento, existe um público-alvo de 70 mil possíveis novos cooperados. A Coopsesp congrega menos de 3% desse total, somando 1.670 associados. “Temos um caminho grande antes da abertura, que nos interessa muito. Mas é preciso crescer para cumprir as exigências do BC e ainda fazer frente aos riscos do crédito, que aumentam com a livre adesão”, informa.


A Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Funcionários da Secretaria de Estado da Fazenda (Coopsef), uma das maiores de Minas, já vem trilhando esse caminho. Os mais de 7 mil cooperados foram conquistados também por meio de convênios com outras secretarias, como Agricultura e Planejamento. Mas alterar o estatuto para aceitar pessoas de toda a sociedade ainda não está nos planos da instituição.


O diretor financeiro, Antônio Ávila e Silva, explica que existe um entendimento de que os riscos, em princípio, não compensam. O temor é perder a qualidade do atendimento. O presidente da Organização das Cooperativas de Minas Gerais (Ocemg), Ronaldo Scucato, acrescenta que a reivindicação para a constituição de cooperativas de crédito de livre admissão nos grandes centros é antiga. Porém, há barreiras a serem vencidas até que o processo se concretize. “No interior, pedidos para a livre admissão aumentam a cada dia. Em breve, instituições que atuam na capital seguirão essa tendência. Porém, vão se proteger”, conclui.

 
Expansão exigirá governança aprimorada

 
Tomar clientes dos grandes bancos que atuam no Brasil exigirá que as cooperativas de crédito aumentem sua profissionalização ainda mais e se fortaleçam internamente. A alternativa para muitas delas é a fusão. Hoje, ocorrem, em média, dois processos desse tipo por mês, no país. Movimento que deve se intensificar agora, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, em função da possibilidade da migração dessas instituições para a modalidade de livre admissão nos municípios com mais de 2 milhões de habitantes.


Atuar nesses grandes centros exige um maior dinamismo e agressividade, de acordo com o gerente de Relacionamento e Desenvolvimento do Cooperativismo de Crédito da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Sílvio Giusti. Também gera a necessidade de reforçar processos de governança corporativa para atender as imposições feitas pelo Banco Central ao editar as novas regras do setor. “As aglutinações permitem atingir os níveis financeiros necessários com mais rapidez. É uma alavancagem muito grande para as cooperativas”, afirma.


A mineira Credicom é o maior exemplo. Em 2007, se transformou na maior cooperativa de crédito dos profissionais da saúde do país, por meio da fusão entre Credicom e Unicred-BH. Depois, prosseguiu com a estratégia de crescimento e se uniu às Unicreds Montes Claros, Vale do Aço e Inconfidentes. No final de 2009, aliou-se à Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Servidores do Sebrae (Sebraecoop). E a estratégia não para por aí. “Estamos abertos a novas possibilidades, pois a aglutinação é um outro caminho para crescer”, revela o diretor comercial da cooperativa, José Augusto Ferreira.


Outros países do mundo, onde as cooperativas de crédito estão entre as principais instituições financeiras, já passaram por esse processo e servem de inspiração para o modelo brasileiro. Quando o sistema nasceu na Alemanha, na década de 1940, eram 12 mil cooperativas. Hoje, existem mais de 1.200, após um longo período de fusões e aquisições. O país tem o segundo maior sistema de cooperativas de crédito do mundo. O setor administra cerca de US$ 1,38 trilhão em ativos.


Em primeiro lugar, figura a França, onde 60% dos recursos financeiros são movimentados por quatro centrais de crédito. O banco cooperativo francês Credit Agricole está entre os cinco maiores bancos do mundo, quando se considera o volume de ativos. Ao todo, as instituições cooperativas francesas são responsáveis por mais de US$ 3,47 trilhões em ativos e possuem 19,2 milhões de associados.


O Brasil figura como o 16º colocado no ranking. As mais de 1.400 cooperativas existentes administram ativos em torno de US$ 16 bilhões, oriundos de 4,5 milhões de associados. Para o presidente da Cooperativa Central de Crédito Rural de Minas Gerais (Crediminas), Heli Oliveira Penido, o país deve, agora, galgar alguns degraus. “As fusões tendem a crescer, ampliando a estrutura patrimonial das cooperativas e acelerando a abertura para livre admissão. Esse é o destino do sistema, pois as vantagens são muito grandes”, pondera. Além dos juros mais baixos e do atendimento personalizado, ele lembra que a cooperativa não visa ao lucro. As “sobras” são divididas entre os cooperados, no final do ano.

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