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Não somos melhores, somos diferentes

Para muitas pessoas cooperativas de crédito são como bancos. E para um outro tanto de pessoas, nem sabem da existência de cooperativas de crédito. Ou até acham que sabem, mas de fato desconhecem o real funcionamento de uma instituição financeira cooperativa.

Por conta disto alguns cooperativistas até dizem que o principal concorrente das cooperativas é o desconhecimento. Talvez seja, pois enquanto alguns países da Europa as cooperativas exibem share de 20%, 30%, 40% e até 50%, no Brasil não chegamos em dois dígitos ainda.

Este dado pode ser encarado como um mar de oportunidades, pois podemos afirmar que as cooperativas de crédito ainda estão “engatinhando” no Brasil. Já experimentam importante crescimento, mas que deve ser ainda mais acelerado nos próximos anos. E qual poderia ser um acelerador para este avanço? Serem mais conhecidas. Por que não somos, e como podemos ser mais conhecidos merece um texto próprio e aprofundado. Neste texto o objetivo é reforçar que cooperativas de crédito não são bancos. Nem melhores que os bancos. Mas sim, diferentes.

Apesar de termos a mesma regulação e o mesmo regulador, exigência dos mesmos indicadores de solidez, também as mesmas exigências patrimoniais, sermos signatários do Acordo de Basileia como todo Sistema Financeiro, e atuarmos concorrencialmente no mesmo segmento que os bancos, não somos banco. Somos uma instituição financeira privada sui generis, pois temos uma configuração jurídica distinta, um modelo de negócios diferente e principalmente, guiada por valores e propósito ainda mais diversos do que dos bancos tradicionais.

Que somos diferentes, não há dúvidas. Até minha filha de 10 anos, sabe disso quando explicou para coleguinhas alguns anos arás sobre o que era o Sicredi, onde seu pai trabalhava: “É tipo banco, mas é diferente”. Mas, no que consiste na prática nossas diferenças para os bancos? Há algumas diferenças clássicas, e repetidamente compartilhadas. Vou me ater a explica-las utilizando um comparativo usado por várias cooperativas, mas como este existem outros, até mais completos e complexos. Mas como a intenção aqui é fazer uma distinção prática dos dois modelos, optei por uma comparação menor e mais simples.

A ideia é traçar um comparativo entre cooperativas de crédito e bancos tradicionais, sem o intuito de definir qual é o melhor, mas sim, apresentar as diferenças.

A primeira diferença é que as cooperativas são sociedades de pessoas, os bancos são sociedades de capital. E aqui reside toda a diferença filosófica dos dois modelos comparativos. Em sendo uma sociedade de pessoas, uma definição literal constante do capítulo II, art. 4º da Lei 5764/71 que versa sobre as cooperativas no Brasil, o foco estratégico e consequente tomada de decisão são direcionados para o bem estar das pessoas, sejam elas os associados, razão de existir de uma cooperativa, ou os colaboradores, que operam a cooperativa no dia a dia. Já nos bancos, sociedade de capital, a estratégia é direcionada para maximizar o retorno sobre o capital dos investidores, o que não está errado e muito menos se trata de algo ilegal. Somente determina foco, estratégia, escolhas.

A segunda diferença é que as cooperativas têm associados, os bancos têm clientes. Na prática significa que para usufruir de qualquer produto ou serviço da cooperativa necessariamente a pessoa, seja ela física ou jurídica, precisa se associar à cooperativa. No banco não, a relação pode ser somente transacional, sem vínculo societário. Mas mais importante que isto, é que esta diferença estabelece um tratamento diferente, pois o cliente é também sócio. A relação também é comercial quando se está negociando alguma necessidade do associado, mas extrapola este aspecto, pois sempre estamos falando com um sócio do empreendimento. Natural que aqui surja o conflito de interesses, pois por vezes o associado se comporta como cliente, quando requer todas vantagens econômicas pra si, e por vezes se comporta como um dono quando recebe distribuição dos resultados ou vota nas assembleias.

A terceira diferença fala sobre a distribuição do resultado. Nas cooperativas o resultado apurado deve ser distribuído aos associados na proporção do que cada um ajudou na formação deste resultado, proporcionando justiça financeira entre os participantes da sociedade. Nos bancos, lembrem-se uma sociedade de capital, o resultado é distribuído na proporção do capital investido por cada sócio. O que também é justo, e universalmente utilizado nas organizações tradicionais, e inclusive, previsto na lei das S/A., ou seja, não se trata de um modelo melhor, ambos são legais e são justos. Mas não há dúvidas de que são distintos.

A quarta diferença cria um ambiente similar ao de um clube dentro das cooperativas. Pois nas cooperativas, só associados operam. Nos bancos não há exigência de ser sócio para operar. Exemplos: posso ter um seguro de vida, uma previdência privada ou um financiamento de veículos de um banco onde não tenho conta, muito menos participação societária. Já numa cooperativa, para usufruir de qualquer um destes produtos, obrigatoriamente é preciso antes de mais nada, ser um associado. Aliás, se associar, é o primeiro ato de uma pessoa numa cooperativa. O segundo, é abrir uma conta corrente. Esta diferença é que dá uma característica de clube às cooperativas, pois via de regra só se relacionam e fazem negócios na cooperativa, os sócios daquele empreendimento. Via de regra só frequentam as agências de cooperativas, os associados, donos da agência. Mal comparando, é como ser sócio de um clube para poder usar a piscina. Se não sou sócio não posso usar.

E a quinta diferença é sobre o controle do negócio. Como em qualquer negócio quem manda é o sócio com mais capital. Mas nas cooperativas é diferente. Este modelo societário peculiar estabelece que todo o sócio, independente de quanto capital social ele tenha integralizado na sociedade, terá direitos iguais. Daí que se diz que em cooperativas o controle é democrático, pois cada pessoa tem direito a um voto. Nos bancos, via de regra sociedades anônimas, o detentor da maior parte das ações é que detém o controle da companhia. Novamente, não há nada de errado neste modelo, funciona desta forma há décadas. Mas diverge frontalmente do modelo societário das cooperativas.

O comparativo demonstra quão distintos são cooperativas de crédito e bancos. Mas a comparação não estabelece um parâmetro de quem é melhor. Afinal, quem tem que definir o que é melhor pra si, é o usuário, quando procura uma instituição financeira. Usualmente procurará um banco tradicional, seja ele público ou privado, mais recentemente até pode procurar uma fintech ou banco digital. Todos estes têm modelos de atuação muito parecidos ou até idênticos. Na essência são todas organizações controladas pelos detentores da maior parte do capital que visam maximizar o retorno de seu investimento, vendendo produtos e serviços para usuários. Até os bancos digitais ou fintechs se aproximam do modelo societário dos ‘bancões’, quando se analisa por este ângulo. Por isto, de fato e de direito são as cooperativas de crédito que realmente se apresentam como uma alternativa distinta neste segmento financeiro, pois há diferença na essência da atuação.

Outro aspecto que diferencia muito as cooperativas de bancos tradicionais e bancos digitais é a atuação local. Cooperativas são entidades próximas de suas comunidades, que por propósito e por imposição legal captam e reinvestem recursos na sua área de ação. Cooperativas são mecanismos de retenção de riqueza local, e por isto, dando uma dinâmica econômica para s comunidades onde atuam, além de em muitos municípios serem o único ente que presta serviços financeiros.

Não quero, contudo, afirmar que as cooperativas são melhores que os bancos. Claro que não é ruim buscar ser o melhor. Mas tudo depende do propósito por trás desta busca. Nas cooperativas, se temos que ser melhores, é para o nosso associado, dono do empreendimento e, para as nossas comunidades, já que somos instituições mais próximas, que estabelecem diferencial pelo relacionamento e engajamento pela vida comunitária. Na verdade, a buscar por ser melhor existe, e é diária. Mas é interna e não externa. É processo e não marketing. É missão, e não meta. É propósito, é genuíno, e não estratégia.

E a partir de uma gestão orientada pelo propósito, que busca cumprir sua Missão, que tem uma cultura forte de servir, de entender para atender, que estimula a empatia no trato com o associado, que deseja ser parte da solução e não do problema nas comunidades, diferenciais subjetivos vão surgindo de forma natural. Diferenciais não nos tornam melhores que a concorrência. Porém, é inegável que a atuação das cooperativas no campo social, extrapolando a atuação restrita na atividade econômica, estabelece uma diferença no formato de atuação dos bancos tradicionais, sejam eles públicos, privados e até os digitais.

Por fim, quem deve definir quem é melhor não é a própria instituição, e sim o seu usuário, o consumidor, o cliente, ou no caso das cooperativas, o seu associado. E este já sabe que não deve medir ou comparar sua instituição cooperativa com um banco tradicional somente pelas relações comerciais que possui. As cooperativas extrapolam seu papel de provedor de P&S, vão além, invadem o campo social movidas pelo seu propósito, instigadas pela missão de melhorar a vida das pessoas e das comunidades, através de relações de confiança e da empatia carregada de interesse genuíno.

Mesmo que não desejamos ser melhores, é pelo social que estabelecemos que de fato, somos diferentes. E ser diferente tem valor.

Solon Stapassola Stahl

Diretor Executivo da Sicredi Pioneira RS